Belém/PA, 04 Dezembro 2025
Isaias Martins
Reportagem especial
O
Theatro da Paz, em noites de gala, recebeu nos dias 03 e 04 de dezembro os
concertos que marcaram a abertura do projeto "Ecos da Amazônia”, um
intercâmbio cultural de iniciativa dos governos do Brasil e França, que integra
a programação oficial das celebrações de dois séculos de amizade entre as duas
nações.
A
iniciativa é inédita e reúne 77 jovens músicos da Guiana Francesa e do Norte do
Brasil, com idades entre 14 e 25 anos, dentre os quais uma filha de São João de
Pirabas, a flautista e oboísta Stéffane Martins. Ex-aluna da Escola de Música e
bi-campeã intermunicipal pela Banda Municipal de Pirabas, Stéffane se junta a outros
estudantes da Escola de Música da Universidade Federal do Pará (EMUFPA), da
Fundação Estadual Carlos Gomes, e jovens de escolas de música da Guiana,
formando a Orquestra Amazônica de Jovens – Ecos da Amazônia.

A
primeira etapa do projeto ocorreu em Belém, com uma programação que incluiu
ensaios, socialização, e dois concertos no Theatro da Paz, nos dias 3 e 4 de
dezembro de 2025, com repertório formado por composições brasileiras e
francesas, que exaltam a sonoridade da floresta. A musicista pirabense definiu
a experiência como “impecável”. “Sem dúvidas, foram duas das mais lindas
apresentações musicais de que já participei”, acrescentou a estudante da EMUFPA,
que participa do projeto como oboísta.
Já
a segunda etapa ocorrerá em Caiena, na Guiana Francesa, em excursão que durará
uma semana entre ensaios e o concerto, a ocorrer no dia 29 de janeiro de 2026,
no auditório Edmond Antoine-Edouard de l’Encre. Stéffane divide-se entre a
expectativa de sua primeira viagem internacional e a alegria de perceber que a
música - sua paixão desde a infância – a fará conhecer outro país. “Por ser um
projeto inédito, e por tudo o que representa, sinto que estamos fazendo história,
já que, enquanto jovens da Amazônia, estaremos representando o Brasil em terras
estrangeiras”, comemora.
Semana de concertos e
recital de conclusão:
Os
eventos que abriram o projeto na capital paraense coincidiram com a semana de
fechamento de um ciclo na vida acadêmica de Stéffane, já que na segunda-feira (01)
ocorreu o seu recital de conclusão do curso técnico de flauta transversal, pela
Escola de Música da UFPA. O recital ocorreu no auditório da instituição, onde,
diante de uma plateia formada por colegas de curso, amigos e familiares, a
musicista obteve conceito excelente.
Feliz
pelo objetivo alcançado, Stéffane destaca sua trajetória durante os dois anos
de curso. “Foram anos intensos: no primeiro semestre, como nunca tivera
professor de flauta transversal antes, precisei me desdobrar para corrigir
minha forma de tocar”, lembra ela, enfatizando que, por muitos meses, precisou
usar as salas da instituição durante o contra turno, para praticar e, assim,
poder acompanhar o “ritmo” das aulas. Durante o ano de 2025, já atuando
profissionalmente na Banda do Corpo de Bombeiros Militar do Pará, o desafio foi
conciliar grade curricular, carga horaria de trabalho e projetos dos quais
participa.

Essa
determinação em se doar para superar obstáculos é uma das características que
definem Stéffane enquanto musicista. Foi o que fez questão de pontuar Clara Nascimento,
sua professora de flauta transversal, ao falar da evolução da aluna ao longo do
curso. “A disciplina supera qualquer teoria de genialidade que a pessoa possa
ter; ela pode ser definida pela disciplina, além do talento também, que é nato”,
observou a docente, que é referência no instrumento, e integra a Orquestra Sinfônica
do Theatro da Paz como primeira flauta.

Cursar
música na maior instituição acadêmica do norte do país constitui uma etapa
importante na formação musical de Stéffane, não só pelo aspecto formativo, mas
também por ter viabilizado várias experiências na área musical, a começar pela
exigência curricular do curso, que a fez ingressar na Banda Sinfônica da Escola
de Música da UFPA e na Orquestra Sinfônica Altino Pimenta (Emufpa), cujos
repertórios de música erudita e popular regional ajudaram a lapidar sua
técnica, assim como lhe possibilitaram se apresentar nas grandes salas de
concerto de Belém, como Theatro da Paz, Teatro Margarida Schivasappa e Igreja
de Santo Alexandre.

Também
graças ao curso, a musicista participou de alguns projetos externos, como o “Carimbó
Galo Duro” (projeto de extensão do Instituto Estadual Carlos Gomes), “Choro do
Pará” (Fundação Cultural do Pará), “Orquestra de Carimbó do Pará” (OCP), além daqueles
que integra atualmente, como a Orquestra Jovem Sesc Pará, a Orquestra Amazônica
de Jovens – Ecos da Amazônia, e a Banda do Corpo de Bombeiros Militar do Pará
(seu primeiro contrato profissional).
Essas
vivências multifacetadas, que transitam entre o erudito e o popular, resultaram
em amadurecimento enquanto musicista, e, junto com as diretrizes do curso,
fortaleceram sua convicção em seguir sua formação acadêmica na área musical. “Contrariando
o preconceito de algumas pessoas que achavam que cursar música não me levaria a
lugar nenhum, o curso me abriu os olhos para o leque de possibilidades, de
forma que hoje minhas perspectivas incluem trabalhar com orquestra e com
produção de eventos”, projeta ela, acrescentando que o mestrado e doutorado em
música também estão em seu radar, para atuar como professora universitária.