quarta-feira, 14 de outubro de 2026

MEMÓRIAS PÓSTUMAS. ADEUS A CLAUDIONOR CORDEIRO.

 

A SORVETERIA BEIJO FRIO E O PLANO DESCOBERTO.

Com muita tristeza recebi a notícia da passagem de uma pessoa por quem aprendi a ter consideração e amizade, ainda que não fosse das mais próximas, mas o cotidiano da cidade nos permitiu momentos legais, um especialmente faz parte das minhas memórias da infância.


O ano exato não lembro, mas era meados dos anos 80, a igreja matriz passava por uma grande reforma sob a administração do capuchinho Frei Camilo Michelli. Alguns jovens da igreja, que vou mantê-los sob sigilo, até porque nem lembro de todos, realizavam a vigilância de alguns materiais naquela tarde. Foi nesse momento que adentrei o templo, quando os não-ditos escolhiam quem levaria o bilhete, supostamente assinado pelo religioso até ao balcão da citada sorveteira, na esquina da plácido com a São Mateus.

Todos me olharam e um deles perguntou:

- Tu gosta de sorvete Paulinho??

- Vai ali pra nós, diz que foi o padre que mandou! então me deram a tal missão de entregar ao Gordo da sorveteria tal bilhete e uma caixinha de isopor. Com seis anos de idade, graças à insistência da professora Joana, eu já sabia “assuletrar”. No meio da viagem, resolvi abrir o tal bilhete, já desconfiando de algo... constatei que era uma solicitação avultada de sorvete de vários sabores regionais, então resolvi seguir caminho.

Ao chegar na calçada, por conta do balcão alto de madeira, com aqueles bancos de pernas longas, típico das tabernas da época, vi apenas a cabeça do atendente, e não vi a presença de uma segunda pessoa (acho que estavam prestando contas). Cheguei e acenei com o bilhete. O Gordo pegou o papel da minha mão, leu, franziu a testa, fez uma cara de que já tinha entendido tudo, e perguntou:

 - quem mandou esse bilhete Paulinho? 

Respondi obedecendo as instruções:

- O padre Camilo!

Aí o gordo disse assim:

- Olha padre! os meninos estão pedindo sorvete e fizeram um bilhete parecido com a sua letra.

O padre se levantou bruscamente e esbravejou:

- Non, non... eu não assinei bilhete non!!! Esses jhovens!

Meu Deus! Naquele instante o mundo caia na cabeça do menino. Fiquei tão apavorado que não sabia pra onde correr. Se saia pro beiradão, se pegava o beco em direção à praça ou fazia o mesmo percurso de volta e entrava no Francisco Nunes. Pensa num desespero! E se a mamãe descobrisse o meu envolvimento no caso? Resolvi sair correndo no rumo da praça. Da esquina do casarão, tive a coragem de olhar para trás, vi o Gordo curvado, com as mãos entre os joelhos, de cara vermelha, na maior gargalhada. Tipo assim: - descobri a mamata de vocês!

Enquanto isso, o velhinho barba branca, mais que de pressa pegou a lambreta da paróquia e “rasgou” para a matriz. Infelizmente não dava tempo de avisar pra galerinha que o plano havia sido descoberto. Minha preocupação naquelas alturas era não deixar a professora Joana saber.

Não sei se a prática era recorrente, juro que não sei!

O que aconteceu lá pra matriz até hoje eu não sei.

Das vezes que o Gordo foi ao posto do Alegre, perdi a chance de perguntar se ele ainda lembrava desse episódio tão marcante na minha infância. Mas as conversas sobre a dupla REPA não permitiram, acabava esquecendo...

E assim amigo CLAUDIONOR CORDEIRO, contando esse episódio onde fomos protagonistas, me despeço de você, rememorando esse fato.

 Que o Altíssimo te acolha em seus braços!