A SORVETERIA BEIJO FRIO E O PLANO
DESCOBERTO.
Com muita tristeza recebi a notícia da passagem de uma pessoa por quem aprendi a ter consideração e amizade, ainda que não fosse das mais próximas, mas o cotidiano da cidade nos permitiu momentos legais, um especialmente faz parte das minhas memórias da infância.
O ano exato não lembro, mas
era meados dos anos 80, a igreja matriz passava por uma grande reforma sob a
administração do capuchinho Frei Camilo Michelli. Alguns jovens da igreja, que
vou mantê-los sob sigilo, até porque nem lembro de todos, realizavam a
vigilância de alguns materiais naquela tarde. Foi nesse momento que adentrei o
templo, quando os não-ditos escolhiam quem levaria o bilhete, supostamente
assinado pelo religioso até ao balcão da citada sorveteira, na esquina da
plácido com a São Mateus.
Todos me olharam e um deles
perguntou:
- Tu gosta de sorvete
Paulinho??
- Vai ali pra nós, diz que
foi o padre que mandou! então me deram a tal missão de entregar ao Gordo da
sorveteria tal bilhete e uma caixinha de isopor. Com seis anos de idade, graças
à insistência da professora Joana, eu já sabia “assuletrar”. No meio da viagem,
resolvi abrir o tal bilhete, já desconfiando de algo... constatei que era uma
solicitação avultada de sorvete de vários sabores regionais, então resolvi
seguir caminho.
Ao chegar na calçada, por
conta do balcão alto de madeira, com aqueles bancos de pernas longas, típico
das tabernas da época, vi apenas a cabeça do atendente, e não vi a presença de
uma segunda pessoa (acho que estavam prestando contas). Cheguei e acenei com o
bilhete. O Gordo pegou o papel da minha mão, leu, franziu a testa, fez uma cara
de que já tinha entendido tudo, e perguntou:
- quem mandou esse bilhete Paulinho?
Respondi obedecendo as
instruções:
- O padre Camilo!
Aí o gordo disse assim:
- Olha padre! os meninos
estão pedindo sorvete e fizeram um bilhete parecido com a sua letra.
O padre se levantou
bruscamente e esbravejou:
- Non, non... eu não
assinei bilhete non!!! Esses jhovens!
Meu Deus! Naquele instante
o mundo caia na cabeça do menino. Fiquei tão apavorado que não sabia pra onde
correr. Se saia pro beiradão, se pegava o beco em direção à praça ou fazia o
mesmo percurso de volta e entrava no Francisco Nunes. Pensa num desespero! E se
a mamãe descobrisse o meu envolvimento no caso? Resolvi sair correndo no rumo
da praça. Da esquina do casarão, tive a coragem de olhar para trás, vi o Gordo
curvado, com as mãos entre os joelhos, de cara vermelha, na maior gargalhada.
Tipo assim: - descobri a mamata de vocês!
Enquanto isso, o velhinho
barba branca, mais que de pressa pegou a lambreta da paróquia e “rasgou” para a
matriz. Infelizmente não dava tempo de avisar pra galerinha que o plano havia
sido descoberto. Minha preocupação naquelas alturas era não deixar a professora
Joana saber.
Não sei se a prática era
recorrente, juro que não sei!
O que aconteceu lá pra
matriz até hoje eu não sei.
Das vezes que o Gordo foi
ao posto do Alegre, perdi a chance de perguntar se ele ainda lembrava desse
episódio tão marcante na minha infância. Mas as conversas sobre a dupla REPA
não permitiram, acabava esquecendo...
E assim amigo CLAUDIONOR
CORDEIRO, contando esse episódio onde fomos protagonistas, me despeço de você,
rememorando esse fato.
Que o Altíssimo te acolha em seus braços!
